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| Paulo Jr. é historiador e colaborador do blog na coluna "Histórias e Curiosidades de Agrestina" |
A disseminação
da devoção à Maria foi introduzida em nosso país pelos europeus, em especial
pelos portugueses que aqui atracaram. A devoção mariana mereceu ao longo da
história um destaque especial, sendo diversas as formas de veneração:
novenários, procissões, pagamento de promessa, recitação de orações (terço,
oficio) em honra a mãe de Jesus. Tais devoções encontram-se espalhada em todos
os recantos do território brasileiro.
No sítio Bebedor das Queimadas, em tempos remotos, antes mesmo de 1845, foi
construída a capela, futura matriz de Agrestina, em homenagem a Santo Antônio
devido à descoberta de uma imagem talhada em madeira. Esta história é bem
difundida inclusive nas aulas sobre a história do município. Porém a devoção a
Maria tinha destaque nos oratórios particulares e nas capelas dos povoados do
território bebedourense. É justamente no interior do município, em um oratório
particular que tem inicio a devoção a Nossa Senhora do Desterro, a qual será
abordada neste artigo.
A devoção a Senhora do Desterro foi
inspirada na fuga da Sagrada Família para o Egito, daí a imagem representa
Maria e o menino Jesus montando num burro, e José puxando-o. Encontra-se a
passagem deste episódio no Evangelho de Mateus 2,13-15;19-23. Segundo Nilza
Botelho, essa devoção foi trazida pelos Padres Jesuítas e pelos colonos
portugueses e muitas capelas foram erigidas sob esta invocação. Fato merecedor de destaque, a
título de curiosidade, é que a cidade de Florianópolis, antes de receber a
denominação atual, era Vila do Desterro.
Analisando a simbologia desta devoção, percebe-se que os portugueses com
o intuito de minimizar e enfrentar a distância de sua terra Natal, recorriam a
Senhora do Desterro, já que sob este título Maria é cultuada como sendo a
padroeira dos imigrantes, daqueles que enfrentam dificuldades, assim como
enfrentou a Sagrada Família durante o exílio no Egito.
Depois de discorrer um pouco sobre a
devoção a Senhora do Desterro no território brasileiro, irei ater a discussão
sobre a devoção da Senhora do Desterro no nosso município.
A devoção tem inicio nos idos de 1922, no sitio Cachoeira, no oratório
particular do Sr. Antônio Pedro da Silva, conhecido por Pedro da Cachoeira. Como
em tantos outros sítios, dezenas de devotos reúnem-se para reverenciar os santos.
Portanto é nesse contexto tipicamente rural que teve início esta tradicional
devoção. Com o passar dos tempos, o Sitio Cachoeira começou a atrair um grande
número de devotos de toda parte do então distrito do Altinho, para “pagarem
promessas” atribuídas aos poderes milagrosos da Santa, ajudando assim a
difundir a devoção, e aglomerando um número crescente de devotos. Espalham-se
noticias sobre os acontecimentos, os quais foram levados ao conhecimento do
Vigário de Bebedouro, bem como as autoridades locais.
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| Dom Miguel de Lima Valverde |
Quando em visita pastoral à Paróquia de Bebedouro, em Maio de 1928 , o
então Arcebispo de Olinda e Recife D. Miguel de Lima Valverde, conforme
constante nos registros paroquiais fez uma recomendação ao vigário de Bebedouro:
“Recomendamos ao Revmo. Vigário, que com prudência procure acabar com os
graves abusos que vem se dando todos os anos com a chamada festa de Nossa
Senhora do Desterro, recusando todo e qualquer caráter religioso a tal
festança”.
Diante de autorização verbal e
escrita, o vigário Pe. Manoel de Andrade Lima providenciou a transferência da
imagem da santa no mesmo ano, e em 02 de fevereiro de 1929, era realizada o 1ª
festa a Nossa Senhora do Desterro na sede do recém-criado município do
Bebedouro, agora totalmente com “caráter religioso” foi realizada missas
solenes, procissão às 16 horas e benção do Santíssimo Sacramento às 18 horas e
quermesse. No ano seguinte conforme registros paroquiais: “grande multidão
assistiu a festa do ano”. Portanto no ano de 2014, esta ocorrendo a 86ª edição
da Festa de Nossa Senhora do Desterro.
A população do sítio Cachoeira não aceitou passivamente a decisão do
Bispo, e diante da resistência, o mesmo Arcebispo autoriza em 1931 que seja
adquirida, benta e colocada na matriz outra imagem de igual feitio e sob a
mesma invocação, portanto ao adquirir a réplica, em 26 de novembro de 1931 o
Pe. Manoel de Andrade devolve a imagem ao seu dono, Pedro da Cachoeira assim
resolvendo este “impasse”, acalmava os ânimos fazendo a devolução da imagem ao
seu legitimo dono.
Daí em diante passando a acontecer duas festas em honra a Senhora do
Desterro, na matriz seguindo a tradição sempre com grande brilhantismo
realiza-se aos 02 de fevereiro, e outra no povoado de Barra do Riachão, onde fora
construída uma capela onde é realizada anualmente uma festa em meados de
fevereiro.
Ainda sobre a imagem, para efeito de estudos vale ressaltar que a réplica
da imagem não representa a fuga da Sagrada Família para o Egito, sendo assim
não seria a imagem da Senhora do Desterro, provavelmente Nossa Senhora da
Conceição diante das semelhanças, e ciente disso após visita do vigário de
Ponte dos Carvalhos o Pe. Nestor de Oliveira resolveu adquirir a imagem que
hoje se encontra no altar lateral da nossa Matriz. Conforme consta nos
registros paroquiais a imagem foi doada por um casal de Agrestinenses que
residiam em Vitória de Santo Antão, a dita imagem foi trazida em procissão de
Caruaru até Agrestina sendo acompanhada festivamente por mais de duzentos
automóveis, com vibrações e aclamações percorreram os fieis as ruas da cidade,
tal ato realizado em 1º de fevereiro de 1976.
Sempre com brilhantismo e grande devoção milhares de fieis de todas as
classes sociais, anualmente renovam sua fé, pagam seus votos, e cultuam a Mãe
do Desterro. Agrestina enche-se de brilho e alegria. As programações religiosas
mudaram pouco no decorrer desses 86 anos de devoção. O novenário tem inicio em
24 de janeiro com a procissão da bandeira, missas solenes são celebradas até o
dia da festa, além de contar com quermesse, leilão e a tradicional procissão
que ocorre na tarde do dia 02 arrastando uma enorme multidão as principais ruas
da cidade, que segundo Dom Bernadino Marchió, é umas das maiores procissões da
diocese de Caruaru.
Além das solenidades de caráter
religioso, a Prefeitura municipal, é responsável pela programação artística,
que também atrai grande numero de turistas, por ser uma festa de destaque no
calendário da região Agrestina, trazendo com a realização deste evento um significativo
incremento na economia local.
Foi dessa forma, apesar de muitos ainda não conhecerem a verdadeira
devoção a Nossa Senhora do Desterro que a festa saiu do interior do Distrito de
Bebedouro para ganhar à proporção que tem hoje, atraindo pessoas de diversos
municípios do estado de Pernambuco.
Recomendo os leitores, verificarem um artigo semelhante, sob o título Festa de interior, no qual discuto a origem das festas no Brasil. disponível em : http://www.adrianomonteiro.com/2013/02/historias-de-agrestina-festa-de-interior.html
REFERÊNCIAS:
MEGALE, Nilza Botelho. Invocações da Virgem Maria no Brasil. Petrópolis: Editora Vozes, 1998.
MONTEIRO JUNIOR, Paulo. Festa de interior. Disponível em: http://www.adrianomonteiro.com/2013/02/historias-de-agrestina-festa-de-interior.html
Foram realizadas consultas nos acervos abaixo:
WIKIPÉDIA: http://pt.wikipedia.org/wiki/Florianopolis
Pesquisa no livro de Tombo da Paróquia de Santo Antônio de Agrestina.
Pesquisa no histórico do município.
Fotografia de Dom Miguel disponível em: http://ven1.blogspot.com.br/2011/07/ha-52-anos-atras-o-padre-pedro-de-sousa.html
Por Paulo Junior
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