domingo, 21 de julho de 2013

Papa já sofreu por amor, andava de ônibus e criticou presidentes

Por Hugo Alconada


“Olá. Como vai? Sou Jorge Bergoglio, padre”. Com essa apresentação simples e direta, o homem que chegou do “fim do mundo” ao Vaticano mostrava que não gostava de rodeios. “Cirúrgico”, o define um ex-pupilo, ao recordar suas poucas, mas decisivas, palavras. “Silencioso e humilde”, diz um sacerdote. O novo Papa, que resolveu ser chamado de Francisco, por conta de Assis, quando a referência máxima jesuíta é Santo Inácio de Loyola, é firmemente contrário ao casamento gay e teve que contornar suspeitas de ter sido, no mínimo, omisso durante a ditadura na Argentina. Talvez seja ultraconservador? Conservador moderado, como preferem alguns? Afinal, quem é Bergoglio, que desembarca amanhã no Rio, em sua primeira viagem internacional? (Confira toda a matéria)

O resumo linear é assim: filho de imigrantes italianos, família trabalhadora, chamado por Deus aos 17 anos, seminário aos 21, escala em vários países, ordenação quatro dias antes de completar 33 anos, carreira meteórica na Companhia de Jesus, enfrentamentos diversos com presidentes, conservadorismo doutrinário e progressismo social. No fim, a chegada ao Trono de Pedro.

Bem-humorado e protetor

Antes de converter-se em Francisco, Bergoglio exibia tanto um humor inesperado — foi capaz de reclamar da saída de um jogador do seu time de futebol, em jejum de gols desde então — quanto um lado protetor, ocupando-se durante meses de um garoto ameaçado em uma das áreas mais pobres de Buenos Aires. Férreo combatente das drogas, de uma espiritualidade muito profunda, mas orientada à ação, é bem jesuíta. Nasceu em 17 de dezembro de 1936 e foi o primogênito de Mário José Francisco Bergoglio e Regina María Sívori, dona de casa e muito próxima dele. Seu bairro de sempre foi Flores, numa casa simples a duas quadras da Praça da Misericórdia. E foi por ali que jogou futebol, com pés chatos, e, com o tempo, um joelho prejudicado. Apaixonou-se e teve seu primeiro grupo de amigos.

Jogador de basquete, como seu pai, só ia às quadras com ele, sua mãe e seus quatro irmãos, Óscar, Marta, Alberto e María Elena, única ainda viva. Xingava? No máximo, lançava um “vagabundo” ou “vendido” ao juiz. Nada além. Clube? San Lorenzo de Almagro. Mas não foram o futebol ou o basquete que consumiram suas horas de adolescente. Passava o tempo livre envolvido pela literatura, com “Os noivos”, de Alessandro Manzoni, “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, ou Johann Hölderlin, maior poeta do romantismo alemão.

Talvez da fonte deste romantismo tenha surgido uma carta de admiração que dedicou à sua amada dos 12 anos, Amalia. “ Se não me casar com você, serei padre”. Ela lembrou a frase quando o antigo enamorado assumiu o papado. Desnecessário esclarecer que Amalia rejeitou Bergoglio à época.

Perguntar se um argentino gosta de tango é banal, mas a realidade é que Bergoglio era, sim, um conhecedor de Carlos Gardel, Azucena Maizani, Astor Piazzolla e Amelita Baltar. Mas também de Edith Piaf e da música clássica, com as quais embalava, já como arcebispo, suas horas de reflexão e descanso.

Aos 13 anos, e por indicação de seu pai, começou a trabalhar. “Não nos sobrava nada, não tínhamos carros nem saíamos de férias, mas nunca passamos necessidades”, rememorou no livro “O jesuíta”, de Sergio Rubin e Francesca Ambrogetti. Sua estreia foi limpando o chão. Neste livro, surgem indícios sobre a relevância de outra mulher.

— Uma pessoa? — perguntaram a ele.

— Minha avó — disse sem titubear.

Por quê? Ele mesmo explicou: “Quem me ensinou mais a rezar foi minha avó. Ela me orientou muito na minha fé e me contava histórias de santos”.

Foi ela, dona Rosa Margarita Vasallo, quem desembarcou numa quente manhã de junho de 1929 em Buenos Aires, envolta em um casacão de couro. Não por estar mal ou febril, mas porque a vestimenta ajudava a esconder o dinheiro que levava após vender tudo o que tinha na Itália.

Na adolescência, Bergoglio era politizado. Eram os tempos de Juan Domingo Perón e de Evita. Há quem se recorde, por exemplo, que o puniram por exibir um escudo peronista em sua roupa. Bergoglio leu comunistas, mas diz que nunca foi seduzido pela literatura marxista.

A trajetória de Bergoglio rumo ao Trono de Pedro começou quando ele tinha 17 anos e namorava uma menina, com quem costumava sair, junto de amigos, para dançar. Foi nesta época que ele recebeu o “chamado de Deus”. Uma versão para a conversão de Bergoglio diz que foram decisivas as palavras de seu confessor na paróquia de São José de Flores. Outra, que o chamado chegou quando ele se encontrou entre a vida e a morte por conta de uma pneumonia grave — que o fez perder uma parte do pulmão direito —, e uma freira o confortou com a frase : “Com sua dor, está imitando a Jesus”.

O próprio Bergoglio simplificou a questão. “O que senti? Nada, só que tinha que ser padre. Ponto. Me chamou. Neste momento, tinha 17 anos, esperei mais três anos para terminar a escola secundária, trabalhar e depois entrar no seminário”, relatou numa entrevista.

A ordenação aconteceu em 1969. Depois de um tempo, Bergoglio viajou para a Espanha de Franco. Na cidade de Alcalá de Henares fez seu voto perpétuo em 1971. Voltou um ano depois para a Argentina como mestre dos noviços da Companhia de Jesus. Sua silenciosa liderança era já evidente. No ano seguinte, era designado o novo provincial da congregação na Argentina. Aos 36 anos, ficou responsável pela supervisão de 15 casas, 166 sacerdotes, 32 irmãos e 20 estudantes.

A década de 70 foi complicada para o país, para a Igreja e para a Companhia de Jesus. Anos da ditadura, da Teologia da Libertação, de sangue. Em maio de 1976, os sacerdotes jesuítas Orlando Yorio e Francisco Jalics foram sequestrados e torturados durante cinco meses. O papel de Bergoglio antes, durante e depois destes sequestros ficou envolto pela polêmica. Em especial porque Yorio, morto em 2000, considerou que seu superior havia retirado a proteção da Companhia de Jesus, deixando-os à mercê da repressão, o que Bergoglio sempre negou. Pelo contrário, diz que os avisou que eles corriam risco, que agiu para que eles recuperassem a liberdade e que, quando isso aconteceu, conseguiu documentos e até comprar passagem área para um deles.

Polêmica durante a ditadura

Em 2010, Bergoglio testemunhou dentro do processo judicial que investigava torturas em quartéis das Forças Armadas e alegou que havia pedido pelos dois jesuítas ao ditador Jorge Videla. Disse ainda que mantém contato com Jalics e que ele está em paz. “Ele ajudou muita gente perseguida”, rememora o padre Roberto Musante, que conhece Bergoglio desde que ele tinha 18 anos. Teria inclusive dado sua identidade para facilitar uma fuga.

Em 1979, a liderança de Bergoglio na Companhia de Jesus chegou ao fim. Com 42 anos, ele assumiu a reitoria do Colégio Máximo, entre 1980 e 1986, e da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel, além de escrever dois livros. Também foi o primeiro pároco da Paróquia São José, na diocese de São Miguel, em Buenos Aires. Se queria pastoral social concreta, foi ali que Bergoglio a encontrou. Sem dramatizar temas que para outros sacerdotes são quase tabu, Bergoglio tem seus diálogos até hoje lembrados na região, como o que travou com Paula, moradora de uma área pobre.

— Meu filho se afastou da Igreja, não está indo à missa e ...

— É um bom garoto? Isso é o que importa — sentenciou.

Após passar uma temporada na Alemanha, onde concluiu sua tese de doutorado, Bergoglio retornou a Córdoba, onde foi diretor espiritual e simples padre confessor na Igreja da Companhia de Jesus. Decisão própria? Vítima de uma intriga? A resposta depende de quem se escutar. Alguns dizem que ele queria retornar à pastoral comunitária, sentir-se como um padre de bairro, o padre Jorge. Há também quem diga que a ida a Córdoba foi um castigo, que não passavam ligações a Bergoglio e que remexiam a sua correspondência. O motivo? Diferenças entre jesuítas por conta de como ele liderou a companhia.

Seu capítulo cordobês durou seis anos, e, em maio de 1992, o Papa João Paulo II o nomeou um dos quatro bispos auxiliares da cidade de Buenos Aires. Com o título, em plena Era Menem, caminhou por todas as áreas pobres da cidade e presenciou a marginalização, que denunciou várias vezes. Apoiou e impulsionou a ida de sacerdotes às zonas pobres, duplicou o número de padres, deu mais recursos a eles, os protegeu diretamente. Com um cotidiano simples, visitava paróquias de ônibus, metrô ou trem, morava numa casa simples.

Seu papel como arcebispo o levou a ter uma relação tensa com todos os presidentes. Em 2001, afirmou que “os bispos estão cansados de sistemas que produzem pobres para que logo depois a Igreja os mantenha”. Os maiores curto-circuitos aconteceram com a Casa Rosada ocupada por Néstor Kirchner, que chegou a apelidá-lo de o cardeal da oposição, e por Cristina Kirchner.

Os dramas e desafios vividos na Argentina podem ter sido determinantes para um dos sinais que lançou em suas primeiras horas como Papa, quando pediu que a Igreja deixasse de ser apenas uma ONG piedosa para se comprometer com fatos concretos, com Jesus Cristo e também com pessoas, o flagelo da droga, a desigualdade social, a corrupção. Poderia se pensar num sacerdote amargo, mas não. Perguntado sobre o fim do celibato, brincou que isto “permitiria não ficar só e ter uma mulher, mas estaria se comprando também uma sogra”. Quando o assunto é união gay, não há espaço para piadas: é “um movimento do diabo na sua guerra contra Deus”.

Apesar, ou talvez por conta do conservadorismo, Bergoglio adquiriu uma boa imagem entre seus pares. Em 2005, quando disputou o papado com Joseph Ratzinger, ficou em segundo lugar. Em 2013, assumiu, aos 76 anos, com outro gesto de humildade:

— Sou um pecador, mas aceito — disse, para depois falar aos cardeais — Que Deus os perdoe pelo que fizeram.

Com seu discurso simples e aversão ao protocolo, tem mostrado a que veio: inúmeras pessoas que tinham dado as costas à Igreja estão retornando a ela. Com aprovação de 85% dos italianos, parece estar pronto para dar um dos passos mais esperados: a reforma da Cúria.autorização.

Fonte: O Globo

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