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| Foto: Divulgação |
Por mais óbvio que para uma parte da sociedade possa parecer que a presidente Dilma Rousseff será impedida em decorrência de uma rejeição de suas contas no Tribunal de Contas da União, existe hoje uma avenida de oito faixas entre o veredicto do TCU e o ato do Congresso de declarar que ela não pode continuar a governar o país.
Não é porque as provas não sejam robustas do ponto de vista técnico. Elas aconteceram e, segundo os especialistas, não foi criação do secretário-executivo da Fazenda, Arno Agostinho. Já existiriam em vários relatórios e nunca serviram de mote para derrubar presidente. Inclusive, nas contas de vários presidentes incluídas no pacote de períodos que a Câmara Federal aprovou sem ler durante esta semana.
Não há e não se pode comparar clima social do Brasil que demitiu Fernando Collor, com o Brasil que está reprovando o governo Dilma Rousseff. Embora nas mídias sociais as pessoas manifestem esse desejo, ainda não há esse clima nas ruas. O que não se pode deixar de observar que o movimento pode não estar nas ruas ainda, mas há vontades explicitadas nas mídias sociais.
Não dá para falar disso, porque os partidos ainda não se afinam sobre o assunto e o que sobra para quem no dia seguinte. Não há hoje nenhum consenso dentro do PSDB, o partido que, em tese, seria a oposição. Até porque uma banda do PSDB tem uma visão torta da Constituição.
Michel Temer interessa a Aécio? Não. Interessa a Geraldo Alkmin? Talvez. E José Serra fecha com quem? Aécio quer tirar Temer e Dilma, para voltar às ruas na esperança de que ele seja o eleito. Para Alkmin, o ideal era um Temer no governo de forma que, em 2018, ele possa disputar. O que, naturalmente, exclui as chances de Aécio. Resumindo: o PSDB virou uma federação “café com leite” de interesses pessoais conflitantes.
E no PMDB? Quem fecha como quem? Interessa a quem tirar Dilma? Pode interessar a Eduardo Cunha, porque essa seria uma forma dele tentar não ser condenado no STF. Pode interessar a Renan pelo mesmo motivo. Mas, uma banda do PMDB sabe que Temer o exclui de qualquer participação no governo. E Temer? Pensa o quê? E ele conta mesmo com quem?
Agora pergunta ao resto? O PT ganha o que com a saída de Dilma? A rua? Um Lula com um discurso de mártir? E por acaso o PT (salvo se ela renunciar) não vai lutar com suas bases para pressionar? O PT aparelhou o Estado brasileiro com gente em 90 mil cargos. Vai ficar calado fora deles? O PT está no volume morto, mas ainda é capaz de reagir e se juntar aos movimentos sociais para ir às ruas ainda que pateticamente.
E o resto da base aliada hoje no governo? Com um Temer no governo eles ganham o que? A “ninguensada” dos demais partidos que fecham com quem está no governo ainda não tem um seguro-indicação. Até porque numa concertação de um governo Temer o padrão de nomes nos ministérios seria elevado, o que não interessa a eles.
No fundo, isso reflete uma coisa. No Congresso não existe um consenso de que se ganha com a saida de Dilma embora todos achem que precisa acontecer algo. Deputado pensa diferente de eleitor. Quer saber o que pode se beneficiar na confusão maior.
Na maioria da cabeça dos que estão lá hoje não tem isso de pensar no Brasil. Uma parte está preocupada com o país, mas a maioria está preocupada em sobreviver. Inclusive, na Lava Jato. Então, sem a pressão das ruas e sem que o Congresso se concentre num foco sobre um objetivo comum, Dilma vai ganhado tempo.
As pessoas ainda podem dizer: Mas, todo mundo que pensa no Brasil quer mesmo Temer! Pode ser, mas… será que o Congresso quer mesmo? Depois dos movimentos dele esta semana e do empresariado dizendo que o país precisa de responsabilidade, não está claro que o nome é Temer. O empresariado e os bancos apostam mesmo em Temer como os seus administradores acreditam?
E se Dilma der um cavalo de pau na política e reorganizar o governo? E se der um “chega para lá” no PT enquadrando o partido de modo que ele perca poder, mas fique no governo?
Dilma não é Fernando Collor e o Congresso atual não tem a estatura moral do mesmo que o demitiu à época. Não dá para conversar sobre o perfil dos deputados que impediram Collor, com os investigados do atual. O Congresso que demitiu Color tinha biografia, o atual tem ficha criminal. Pela menos boa parte dele.
Então, o Congresso atual só poderia impedir Dilma com a pressão das ruas e num movimento crescente de forma que fosse o povo que lhe desse respaldo. Pelo prestígio que o Congresso tem, hoje não sairia Dilma sozinha. Teriam que ir para cadeia quase um terço de deputados, segundo a opinião dos eleitores. Ou seja: esse Congresso não tem as condições morais de demitir Dilma e ela, o PT e os demais partidos sabem disso.
Então, Dilma, seja por falta de unificação do discurso dos que são contra ela, seja por falta de inidoneidade do Congresso e ainda por falta de mobilização ainda pode resistir, para desespero da economia.
E sejamos sensatos, mesmo se Temer assumir não há nenhuma garantia de que reunirá mesmo as condições políticas de um governo de coalizão. Até porque, se tem uma coisa que nem Aécio nem Lula, o PT e nem metade desse Congresso que está aí, se interessam é nesse negócio de coalizão de salvação nacional.
Vai ser uma sofrência…
Por Fernando Castilho


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