sábado, 5 de novembro de 2011

O retrato de um gênio - A biografia autorizada de Steve Jobs

A biografia autorizada de Steve Jobs traz o relato definitivo das idiossincrasias, da genialidade e das fragilidades do fundador da Apple

Nova York e São Paulo - Um dos paradoxos da vida de Steve Jobs é que, apesar de sua conhecida mania por segredo e privacidade, muitos dos detalhes de sua personalidade eram conhecidos do público.

Nos incontáveis obituários e tributos que se seguiram à sua morte, em 5 de outubro, nenhum de seus traços deixou de ser examinado: a obsessão, o detalhismo, as grosserias, a genialidade, o charme.

Mas o retrato sempre pareceu um pouco fora de foco, pois as histórias sempre vinham de segunda ou terceira mão. Aqueles que foram humilhados em público, aqueles que viram de perto o nascimento de produtos revolucionários, aqueles com quem Jobs dividiu suas angústias e suas alegrias quase nunca falaram com detalhes e abertamente sobre suas experiências.

Até agora. Steve Jobs, a biografia autorizada escrita pelo jornalista Walter Isaacson (Companhia das Letras, 632 págs.), é o relato definitivo da vida e do legado daquele que já vem sendo considerado um dos maiores homens de negócios do último século.

As motivações de Jobs de “mudar o mundo” e sua busca pela perfeição já foram repisadas, mas no livro elas ganham nova vida quando se expressam nos detalhes do dia a dia. Jobs se revoltava com a caligrafia do convite de casamento tanto quanto exigia decidir onde ficariam os banheiros de sua empresa.

O livro também revela o que já se aventava: nove meses se passaram entre o diagnóstico de seu câncer e a primeira operação. As histórias são muitas. Dão ideia da maluquice do personagem nas primeiras páginas, e tornam-se melancólicas quando aquela força da natureza se esvai por causa da doença. A seguir uma pequena amostra do que foi Steve Jobs.

Adoção

Jobs soube desde cedo que era adotado. Quando tinha 6 ou 7 anos, lembra de ter contado o fato a uma vizinha. “Então isso significa que seus pais verdadeiros não queriam você?”, a menina perguntou. Ele ficou arrasado. Em casa, seus pais o tranquilizaram: “Nós escolhemos especificamente você”.

A ideia de ter sido abandonado e escolhido teve um efeito forte sobre a personalidade de Jobs. “Steve me falou muito sobre o abandono e a dor que isso causou. Isso o fez independente. Ele seguiu a batida de um baterista diferente, e isso veio por estar em um mundo diferente daquele em que nasceu”, diz o amigo Greg Calhoun.

O início da Apple

Na parceria entre Jobs e Wozniak, o segundo sempre esteve à frente dos feitos em eletrônica e programação. Nos primeiros dias da amizade, quando os negócios começaram a engrenar, o pai de Wozniak, Jerry, chegou a sugerir que Jobs não merecia fazer parte do negócio, pois não produzia nada.

“Você não merece merda nenhuma”, disse a Jobs. O próprio Wozniak saiu em sua defesa. Ele admite que, sem Jobs, jamais teria criado uma empresa em torno de suas invenções. “Nunca me passou pela cabeça vender computadores”, afirma ele. Dessa parceria nasceria a Apple.

Drogas

Jobs disse que as drogas psicodélicas tiveram um papel central em sua personalidade criativa e que o tornaram “mais iluminado”. Ele fumou maconha pela primeira vez aos 15 anos. Mas o que realmente mudou sua vida foi o ácido.

“Tomar LSD foi uma experiência profunda, uma das coisas mais importantes da minha vida. O ácido lhe mostra que há um outro lado da moeda, e você não consegue se lembrar dele quando o efeito passa, mas você sabe dele.

O LSD reforçou minha noção do que era importante — criar grandes coisas em vez de ganhar dinheiro, pôr as coisas de volta no fluxo da história e da consciência humana, tanto quanto eu pudesse.”

Os bens materiais

Entre os muitos paradoxos aparentemente irreconciliáveis da personalidade de Jobs estava a sua crença budista na libertação dos bens materiais. “Nossos desejos de consumo são doentios.

Para atingir a iluminação é preciso desenvolver uma vida sem apegos nem materialismo”, disse Jobs a uma namorada. Ela respondeu dizendo que ele estava fazendo o contrário, criando computadores que as pessoas desejariam.

“No fim, o orgulho que Jobs sentia dos objetos que fabricava foi mais forte do que sua sensível noção de que as pessoas deviam evitar o apego a esses bens”, escreve Isaacson.

Vegetarianismo

Jobs abraçou o vegetarianismo logo que entrou na faculdade. Ao longo de sua vida, houve diversos episódios de dietas extremas, com purgações, jejuns e dias à base de cenoura ou maçãs. Sua recusa em comer melhor se tornou um problema depois que foi diagnosticado com câncer.

Seu organismo precisava de uma nutrição balanceada. As refeições em sua casa passaram a incluir peixe e frango, e seu filho abandonou o vegetarianismo. Mas Jobs não seguiu as recomendações médicas.

A única exceção era o sushi de enguia, uma iguaria no Japão. “Ele amava tanto esse prato que permitia que a enguia cozida se passasse por comida vegetariana”, relata Isaacson, autor do livro.

Um produto só

Ao contrário de outros fabricantes de meados dos anos 80, Jobs acreditava piamente que um computador deveria ter hardware e software integrados, tudo parte de uma coisa só. Isso significou, entre outras coisas, que o sistema operacional da Apple jamais seria fornecido a outros computadores, como fez a Microsoft com o Windows.

Sua obsessão em manter a Apple e seus computadores como entes isolados fez com que chegasse a encomendar ferramentas especiais, para que ninguém fosse capaz de abrir a caixa do Macintosh.

Uma casa muito engraçada

Steve Jobs em sua casa
Jobs em sua casa: decoração minimalista porque ele não achava móveis de que gostasse

“Desculpem, não tenho muita mobília”, dizia Jobs a quem o visitava em sua casa. “Simplesmente não teve como.” Essa era uma de suas idiossincrasias constantes: por causa de seus critérios rigorosos de qualidade, além de uma tendência espartana, ele relutava em comprar qualquer móvel que não o encantasse.

Tinha uma luminária Tiffany, uma mesa de jantar antiga e um videolaser num Trinitron da Sony. Mas, em vez de sofás e cadeiras, almofadas de bolinhas de isopor no chão.

O convite de casamento

Steve Jobs com sua mulher, Laurene
Steve Jobs com sua mulher, Laurene: dieta e tratamentos da internet contra o câncer

Jobs tinha uma paixão especial por tipografia. Quando estava planejando o casamento, Laurene Powell chamou a responsável pela caligrafia dos convites para mostrar algumas opções.

“Jobs olhou-as por algum tempo, levantou-se e saiu da sala. Elas ficaram esperando, mas ele não voltou. Powell foi procurá-lo e o encontrou no quarto. ‘Livre-se dessa mulher’, disse ele. ‘Não consigo olhar para o material dela. É uma merda.’ ”

As entrevistas de emprego

Jobs sempre quis ter em sua equipe apenas funcionários da mais alta competência. Por isso, ele nunca se afastou do processo de contratação. A missão era trazer para a Apple gente criativa, muito inteligente e um tanto rebelde. Os candidatos que não se encaixassem no perfil corriam o risco de ser caçoados em público.

Certa vez, Jobs entrevistou um candidato a uma posição para gerente de software. Sua aparência de convencional demais para a Apple ficou evidente logo de cara.

Entre as perguntas, estiveram: “Com que idade você perdeu a vir­gindade?” e “Quantas vezes você tomou LSD?” A única decepção acon­teceu com John Sculley, que Jobs tirou da Pepsi — Sculley armaria um golpe que tiraria Jobs da empresa que ele próprio fundara.

O primeiro bilhão

Logo depois do lançamento de Toy Story, o primeiro filme da Pixar, a empresa abriu o capital na bolsa. Ao final do primeiro dia de negociações, as ações de Jobs valiam 1,2 bilhão de dólares, cinco vezes o que ele havia conseguido com o IPO da Apple. Mas, em entrevista ao The New York Times, Jobs diria que o dinheiro não importava. “Não há iates no meu futuro. Nunca fiz isso por dinheiro.”

A tela multitoque

O livro de Isaacson deixa em aberto quem foi o criador de uma das principais inovações da Apple, a tela multitoque do iPhone e do iPad. Segundo uma das versões relatadas, o próprio Jobs teria feito a encomenda à equipe de engenheiros.

O designer Jonathan Ive, po­rém, conta uma história diferente. Ele teria desenvolvido a tecnologia em se­gredo com sua equipe e, quando tinha um protótipo funcional, o apresentou a Jobs, que teria ficado encantado com a ideia.

A doença

O livro confirma uma história que havia sido publicada pela revista Fortune anos antes: Jobs passou nove meses ignorando os conselhos de médicos, familiares e amigos para se submeter a uma operação. Isaacson não se propõe a especular sobre uma eventual cura, caso Jobs tivesse sido operado antes.

Mas o retrato que ele pinta é o de um cabeça-dura que acredita ser possível debelar a doen­ça “com outras coisas”, entre elas uma dieta vegetariana, acupuntura e tratamentos encontrados na internet. “Não queria que abrissem meu corpo”, diria Jobs mais tarde — segundo seu bió­grafo, com sinais de arrependimento.

O legado

No final do livro, há um longo trecho em que Jobs, em suas próprias palavras, tenta resumir seu legado: “Minha paixão foi construir uma empresa duradoura, onde as pessoas se sentissem incentivadas a fabricar grandes produtos.

Tudo o mais era secundário. Claro, foi ótimo ganhar dinheiro, porque era isso que nos permitia fazer grandes produtos. Mas os produtos, não o lucro, eram a motivação”.

Conteúdo do site da Revista Exame
(Todos os créditos salvos ao autor)

Publicação: Adriano Monteiro        Fonte: Site Revista Exame

0 comentários:

Postar um comentário

Sua opinião é muito importante para nós. Conte-nos algo sobre a matéria!